Começo explicando
Eu gosto de começar explicando tudo, por isso sou boa professora, mas aqui serei escritora apenas.
Faço parte de um grupo de escritoras que teve seu maior volume de “inspiração” literária na adolescência. Lembro que durante as aulas do ensino médio alguma coisa me aborrecia, entediava, distraía ou inspirava e bastava qualquer uma dessas fagulhas para - ZUM - caderno virado pra última página e nascia um texto.
Às vezes esse texto ficava me rodeando e não vinha, principalmente na aula de geografia quando eu queria prestar atenção, mas não tinha vontade de anotar nada. Essa era a hora dos desenhos na marginália, mesmo que eu não soubesse desenhar. E aqui estou eu começando pelo começo.
Pois agora na vida adulta não tenho mais esse espaço sagrado da escola em que sou obrigada a ficar totalmente entregue ao exercício da concentração, seja ela na aula ou nas minhas ideias criativas. Quer dizer, eu continuo na escola. Sou Professora. A diferença agora é que o tempo-espaço é do capital, o que me obriga a estar ali concentrada para oferecer o melhor serviço. Não tem verso do caderno pra mim.
Mas tem meu grupo de whatsapp comigo mesma. E assim a velocidade dos dedos alterou novamente o tempo e o espaço dos meus pensamentos. Troquei a marginália para me distrair com desenhos, pelas notificações que descem do canto superior da tela.
Logo eu, testemunha fervorosa do kindle e do google drive. Agora percebo que as musas se escondem na marginália e na lentidão proporcionada pelo deslizar da caneta. (E neste momento em que transcrevo o texto do caderno para o computador, descobri que as divindades da correção também abençoam quem começa a escrever primeiro pelo papel).
Volto a explicar pelo começo.
Essa carta de notícias nasce de um presente e um chamado.
Em um evento organizado pela Editora Claraboia (obrigada, Tainã por ter aberto esse espaço!) nós mulheres escritoras ganhamos um caderno e no começo do evento cada uma de nós se apresentou. Eu fui a primeira e a minha apresentação foi péssima pq tinha esquecido de ensaiar minha personalidade de escritora. Felizmente isso não importou pq as outras mulheres se apresentaram lindamente. Enquanto elas falavam aconteceu algo parecido com a minha experiência nas aulas de geografia, eu queria anotar os sentimentos que elas transbordavam na apresentação, mas escrever era lento demais e o dia de total entrega à concentração e à arte estavava apenas começando. Instintivamente comecei a desenhar. Explicando: o caderninho na mão para ouvir mulheres escritoras foi o presente.
Passo ao chamado. Este aconteceu já no meio do encontro e foi muy objetivo: comecem ontem a formar o seu público leitor e cuide dele assim como você cuida da sua escrita.
Naquela época do - ZUM - e virar o caderno 10 matérias pro final, eu encontraria o meu público leitor-que-também-escreve na blogosfera.zip.net. Por isso até que abri um medium quando decidi levar à sério minha vida de artista, mas sou garota antenada e percebi que all the cool kids estão nas newsletter agora. Vocês sentam comigo no recreio?
De formas que nosso combinado vai ser esse. Vou atender ao chamado, mas no tempo da marginália. Com meu novo caderninho me acompanhando sempre atento às minhas distrações.
Bem-vindes (vocês e eu) ao meu tempo lento.
Ps.: como garota antenada que sou, descobri que dá pra importar o que estava no medium pra cá, então vocês podem se divertir vendo o que mais tem no final do meu caderno.




é tempo de escrever <3